Uma outra leitura Destruição estratégica de valor – DEV Atenção para esse artigo! Eis porque as empresas distribuidoras privatizadas, com margens recordes no mundo, apresentam prejuízo. Grato pel …

Uma outra leitura

Destruição estratégica de valor – DEV Atenção para esse artigo! Eis porque as empresas distribuidoras privatizadas, com margens recordes no mundo, apresentam prejuízo. Grato pela colaboração, Dr. Eduardo Toledo.



Destruir valor pode não ser apenas o resultado da má gestão ou falha executiva da administração das empresas. Pode significar também um ato deliberado dos gestores, quando as margens operacionais de suas empresas mostram-se absurdamente altas. Pelo menos é o que se pode deduzir, quando analisamos os demonstrativos das antigas empresas do serviço público brasileiro. Principalmente, as do setor elétrico antes e depois da privatização.


Inicialmente é interessante entender o contexto que desenvolveu a necessidade da pratica da Destruição Estratégica de Valor.


Imaginem um país com um grande número de bacias hidrográficas. Um país que tenha uma extensão territorial continental, que permite aproveitamentos hidrelétricos renováveis com reduzido e reversível impacto ambiental e que esteja situado em área tropical sujeita a alta incidência de chuvas. E exatamente por essas características, permite a exploração de parques geradores de grande potencia e, por decorrência, custos unitários mínimos pelos ganhos de escala de geração não encontráveis em nenhum outro lugar do planeta. Não é difícil concluir que essa vantagem é nossa.

No caso da geração elétrica, essa vantagem significa dizer, que o mesmo MWh gerado por hidrelétricas nacionais mais recentes a um custo médio de 16 dólares, só pode ser gerado por térmicas a óleo combustível ou gás natural em qualquer parte do planeta a um custo médio de 52 dólares. Convenhamos, essa é uma vantagem nossa e nada desprezível. Vantagem essa, que é ainda maior, se consideramos as hidrelétricas mais antigas, já depreciadas e mais próximas aos centros de consumo. O preço da energia, neste caso, pode chegar a 8,0 US$ / MWh. Conforme divulgado pelo artigo "Geração de energia ganha espaço no mercado", em matéria publicada na Gazeta Mercantil de 08/09/99, onde diz: "A Copel deverá ser uma das principais beneficiadas pela livre competição, pois tem um dos menores custos por MWh: na média, R$ 14,25". Ao câmbio daquela época, 1,885 reais por dólar, a energia da Copel seria de 7,55 dólares por MWh.


Imaginem agora, uma política de fixação dos preços da energia elétrica brasileira pelo governo, que tenha como referência não os custos genuínos do nosso país, mas o preço internacional de sistemas predominantemente térmicos. Uma política que, além de refletir um custo de geração muito mais alto do que o brasileiro, reflete também as flutuações de preços do petróleo como uma "commoditie" mundial, introduzindo a variabilidade de preços, típica daqueles sistemas, em nosso sistema hidrelétrico.


Pois bem, tudo isso tem ocorrido aqui, debaixo de nosso nariz. E nos leva a questionar a quem interessaria impedir que a sociedade brasileira continuasse a se beneficiar de uma vantagem que lhe foi própria durante os últimos trinta e cinco anos. Afinal, mesmo quando as tarifas embutiam ineficiências típicas do setor estatal, como ainda argumentam os neovendedores escoltados por um segmento da mídia acrítica, elas eram bem menores do que as praticadas atualmente após a desregulamentação e privatização do setor elétrico. Anteriormente elas representavam apenas um terço do que a pretensa neoconcorrência exige hoje para operar o sistema de Geração, Transmissão e Distribuição de energia.


Mas o que interessa de fato, é compreender que o resultado da equiparação dos preços internos aos preços internacionais, significou imputar imediatamente à sociedade brasileira, as referências de preço do sistema elétrico americano, que carrega ineficiências de uma sociedade que nunca se preocupou em fazer um planejamento ótimo de sua geração e operação, esperando que a concorrência fizesse isso por ela. Significa dizer em termos econômicos, que foi antecipado para os nossos consumidores, uma situação que só seria determinada no futuro pelo esgotamento dos aproveitamentos hidrelétricos disponíveis, quando então, aí sim, seriamos obrigados a absorver os altos custos dos sistemas térmicos.


De outra forma, o que aconteceu, foi a apropriação pelos compradores das empresas privatizadas, de uma vantagem econômica que era compartilhada pela sociedade brasileira durante as últimas três décadas e meia. Uma vantagem, cuja falta de reconhecimento criou a condição política favorável para a sua transferência a terceiros. Os consumidores mais atentos à conta de luz, os que comparam o antes e o depois da desregulamentação, "$entem" o que estou falando.


Adicione a essa benesse, as altas tarifas, concedidas pelo governo aos compradores de nossas empresas de energia elétrica, os ganhos que eles próprios foram capazes de produzir ao reduzir seus custos operacionais. Seja através do corte de custos da mão de obra própria, seja através da manutenção terceirizada dos sistemas elétricos com mão de obra a preços aviltados, seja através da aquisição de material e equipamentos de qualidade duvidosa ou outros artifícios que são usuais do setor privado e que modernamente são denominadas de práticas competitivas. E temos assim, a composição ideal para obtenção de margens operacionais abusivas.


É neste contexto favorável, mas talvez não ético que surge o ponto crucial. E aí surge o grande problema. Como dissimular tamanha margem de ganho, que era proibida ao setor público, mas ao setor privado foi oferecida? Simples. Com a técnica de Destruição Estratégica de Valor. Isto é, transformando riqueza operacional de caixa, em riqueza patrimonial. E como pode isto ser feito? Através de captações de recursos em moeda estrangeira para aquisição de empresas deficitárias nacionais.


Essa medida destrói o resultado liquido através da compensação de resultados dos balanços consolidados. E mais, ainda cria despesas financeiras, que não existiriam se a decisão de emprestar não tivesse sido tomada. Mas isso não seria temerário? E se houver uma desvalorização cambial? Melhor ainda. A variação cambial negativa produzida por ela, potencializa a destruição do lucro a ser apresentado ao fisco se essa decisão não tivesse sido tomada. E se a desvalorização cambial continuar alem do ajuste necessário? Simples. Sempre será possível solicitar a agencia reguladora, ANEEL, a correção das tarifas para cobrir as variações de custos decorrentes da política cambial, que somos obrigados a absorver.


Pronto. Aí está o exemplo de um diálogo que poderia ser travado no âmbito do Conselho de Administração de uma empresa e que melhor define o conceito de Destruição Estratégica de Valor.


O melhor exemplo é o que tem ocorrido com as empresas de energia elétrica. Antes da privatização, o endividamento (proporção de capital de terceiros e próprio) do setor que era de 18%, foi elevado para 62%, em média, após a privatização. Acima inclusive dos padrões americanos que nos últimos 11 anos se mantiveram em torno de 60%. Isto é , quase toda a capacidade de endividamento que as empresas dispunham, foi comprometida com aquisições, fusões ou incorporações de empresas que em termos de benefícios contábeis complementares, poderiam reduzir o resultado operacional do conglomerado. E só em muito menor proporção, foi feito investimento direto na melhoria e/ou expansão dos sistemas elétricos existentes.


Os indicadores de perdas totais, que resultam da composição das perdas comerciais e elétricas, nos comprovam o que antes era apenas uma intuição. A melhoria divulgada como competitividade privada, pela redução dos indicadores de perda total que o setor vem apresentando, passando de uma perda média de 29% antes da privatização para 17% médios atuais. Decorre principalmente da redução das perdas comerciais pela redução da inadimplência, que passou de 20% médios antes da privatização para 6% depois dela. Já as perdas elétricas, aquelas que sua redução depende de investimentos em melhoria e manutenção do sistema. Estas subiram, passando de uma perda média de 9% antes da privatização para 11% depois dela. Fator indicativo, que as excelentes margens obtidas pelas empresas não foram investidas na melhoria de seus sistemas elétricos.


Com respeito às margens operadas pelas empresas. As tarifas autorizadas nos primeiros cinco anos da década de 90 eram suficientes para cobrir a tecnologia de geração utilizada, os propalados e ineficientes custos e ainda gerar uma margem EBITDA (relação EBITDA/receita líquida) em torno de 14%. Ao final de 2000, mesmo antes da ANEEL autorizar os últimos reajustes que as empresas vem solicitando a guisa de correção por perdas inflacionárias, a margem EBITDA do setor saltou para 37% na média (EBITDA é o resultado operacional da empresa antes dos juros, impostos, depreciação e amortização).


Concluindo. O lucro real se tornou tão grande após a privatização, que somente através da prática da destruição estratégica de valor foi possível não deixa-lo aparente. Somente com o uso desse recurso tem sido possível conciliar a despesa escorchante da conta de luz enviada aos consumidores aos irrisórios lucros líquidos apresentados pelas empresas em seus relatórios anuais, dissimulando o resultado e acumulando riqueza patrimonial como se pode constatar pelos demonstrativos publicados nos últimos anos pelas empresas. Daí, poder concluir que os acanhados resultados apresentado pelas empresas em ambiente tão favorável ao lucro, só possa decorrer da prática generalizada da Destruição Estratégica de Valor.


Fontes: 1. Balanços Anuais das Empresas de Energia Elétrica

2.Relatório "Análise das Concessionárias de Energia Elétrica de 91 a 95", produzido pela Divisão de Estudos Econômicos da CPFL

3. Plano 2010 ­ Eletrobrás

4. www.doe.gov (Department of Energy ­ U.S.A.)


Econ. Eduardo Nelson de Sousa Toledo

Professor e Consultor de Análise de Investimentos

Especialização em Custos e Tarifas pelo BIRD

Mestrando em Qualidade pela Unicamp

Pós Graduado em Administração pela FGV

Rua Presidente, Alves 717

Jardim Flamboyant ­ Campinas / SP

CEP: 13.093-280


Tels.: 019 3255 8628

Cel.: 019 9603 5657


Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *