Usinas térmicas – uma solução que gera outros problemas
Desde que começou a tal reestruturação do setor elétrico, as questões técnicas foram desprezadas pelo Governo e deu no que temos hoje – racionamento, possibilidade de cortes de energia, riscos maiores de apagões (não confundir o corte programado e controlado pelas distribuidoras, com um apagão fora do controle das empresas, como houve em 1999 – aquele do "raio" de Bauru,.que só a velhinha de Taubaté ainda acredita).
Os técnicos das empresas foram emudecidos pelo discurso oficial ou pela truculência da equipe de ACM, que não admitia qualquer opinião técnica que fosse contra as mudanças liberalizantes em vigor.
As poucas vozes que alertavam para um futuro sombrio eram chamadas de terroristas e adeptas da "fracassomania", com dizia FHC. As "autoridades" tentaram culpar São Pedro e, de repente, as usinas térmicas a gás viraram a solução mágica. Até outro dia o ministro José Jorge falava em 55 térmicas a serem construídas nos próximos anos. Haja gás …
Maravilhas das maravilhas, podem ser construídas em pouco tempo e não dependem dos humores do tempo. Porque não se pensou nisso antes? Aí voltamos às tais questões técnicas. O País funcionou bem, muito bem aliás, por trinta e tantos anos, convivendo bem com os humores de São Pedro e com algumas poucas usinas térmicas.
Porque poucas? Porque sempre foram bem mais caras que as usinas hidráulicas e não mostravam nenhuma vantagem apreciável nos estudos que eram feitos até alguns anos atrás.
Falei em estudos? Talvez essa seja a palavra que faz a diferença doutros tempos mais iluminados para os atuais. E aí vem a pergunta "terrorista": a implantação dessas térmicas está sendo estudada? O investidor certamente fez seu estudo econômico, mas quem está autorizando esses projetos, será que cogitou nos tais problemas elétricos? .
Quando se projeta qualquer instalação elétrica, a técnica recomenda que se tome os cuidados necessários para que a corrente elétrica passe normalmente sem problema pelos fios (ou cabos, se for alta tensão), sem aquecimentos excessivos e desligamentos dos disjuntores (vale para uma casa ou uma subestação de alta tensão).
Não tenho dúvida que os projetistas das térmicas e o pessoal do ONS estão a par desses preceitos e que as instalações não terão problemas para as condições normais de operação dessas térmicas.
Mas … e quando ocorrer um curto circuito?, Será que as subestações estão capacitadas a suportar as correntes que vão passar quando houver um curto-circuito nas proximidades? Curto-circuitos podem ocorrer por algumas causas inevitáveis, quase todas nas linhas de transmissão que interligam as subestações: queda de raio (em subestação isso não acontece, a menos que o projeto fosse feito por alguém fora do ramo), queda de balão (muito comum aqui no Grande Rio), queimada sob a linha, etc. Por falha na operação de algum equipamento na subestação também, mas muito raros, se comparados às outras causas.
E aí chegam as térmicas. As usinas que geram a energia para nosso consumo, geram também as correntes de curto circuito que, se não forem devidamente "administradas", queimam, literalmente, os equipamentos. Podem danificar uma subestação que alimenta uma cidade, ou alguns bairros, nos grandes centros.
Quando nosso sistema elétrico começou a crescer, lá pelos anos 60, grandes subestações foram construídas nos grandes centros. Aqui no Rio, Jacarepaguá, Cascadura, Grajaú, (quem mais da Light visível ao grande publico?). Em São Paulo, Guarulhos, Mogi das Cruzes, (quem da Eletropaulo visível ao grande publico?).
A capacidade dessas subestações para suportar as correntes de curto circuito é a das previsões mais pessimistas da época, década de 60, sempre bom lembrar. Foram projetadas para suportar 40 kA, o que dava uma boa folga para o que se tinha na época. Aliás, não havia equipamentos de maior capacidade na época.
Ao longo dos anos, principalmente depois da entrada da usina de Itaipu, as correntes de curto circuito foram crescendo e começaram as preocupações dos técnicos na administração dos seus efeitos sobre os equipamentos mais antigos, buscando soluções econômicas e criativas para evitar trocas de equipamento e reforma de subestações responsáveis pelo fornecimento de energia a grandes centros.
Como as grandes usinas hidráulicas (Itaipu, Ilha Solteira, Jupiá, Furnas, Marimbondo, etc) estão longe dos grandes centros, as longas linhas de transmissão (centenas de quilômetros), que as ligam às subestações, servem como um amortecedor para as tais correntes de curto-circuito. Isso facilitou. a administração técnica dos efeitos da expansão da geração de energia sobre as correntes de curto circuito..
As térmicas não. A vantagem de poderem ser construídas próximas aos grande centros, sem necessidade de linhas de transmissão longas e caras, é uma desvantagem quando se olha a questão dos níveis de curto circuito.
As várias térmicas que se pretende instalar no estado do Rio de Janeiro, vão elevar significativamente os níveis de curto de circuito nas subestações da Light e Furnas, na área do Grande Rio.
Isso pode ser administrado via reforma total de algumas subestações, além de muito caro e demorado, pode até não ser possível, pois são pontos cruciais para o fornecimento de energia. A solução mais barata e rápida é enfraquecer a rede elétrica, isto é, desfazer algumas interligações que foram feitas para aumentar a confiabilidade, quer dizer, reduzir os riscos de desligamentos.
Ou seja, as térmicas diminuem o risco da falta de energia, mas aumentam o risco de apagões na cidade.
Sabe-se que há estudos feitos pelo ONS, mas não se sabe o que apontam. É bom que sejam apresentados para não causar novas surpresas ao Presidente FHC e sua equipe. Além dessa questão elétrica, a instalação de térmicas a toque de caixa traz outras que não são faladas, como a poluente operação em ciclo aberto (questão ecológica) e importação da tecnologia, dos equipamentos, projetos, combustível, etc (efeitos sobre a balança comercial), aumento dos preços da energia, etc.
Sem estudos de planejamento, as térmicas podem se tornar mais problema que solução.
Fábio Resende – Diretor do ILUMINA