JB 23/08/98
Light se prepara para o verão
O presidente da Light, Michel Gaillard, não esconde o jogo: haverá problemas de abastecimento de luz no Rio durante o próximo verão. A empresa trabalha contra o tempo para minorar as dificuldades, evitar os blecautes e conquistar a confiança dos consumidores.
Os apagões ocorridos no verão passado provocaram enorme estrago na imagem da companhia que, agora, torce para o calor deste ano ser menor. Vai ser difícil. O inverno nem acabou ainda e os termômetros já registram, durante algumas horas do dia, 32 graus centígrados na Cidade Maravilhosa.
Justiça seja feita. A tarefa da Light não é nada fácil. O Estado do Rio produz algo entre 15% e 20% da energia que consome. Em janeiro deste ano, o consumo, em comparação com o mês anterior, cresceu 22% na área residencial, que responde por 34% da demanda total dos 30 municípios abastecidos pela empresa. (Justiça seja feita. A LIGHT desmontou sua equipe de manutenção e preferiu o caminho mais barato da terceirização com a natural perda de qualidade!)
As áreas mais críticas estão nas zonas Sul e Oeste do Rio, onde vivem as classes mais abastadas. Gaillard acredita que é exatamente por isso que a repercussão dos apagões ocorridos no último verão tenha sido mais ruidosa. (O que quer dizer que se faltasse luz para os menos abastados estaria tudo bem?)
Lugares como a Barra da Tijuca, bairro carioca onde centros comerciais pululam, estão aumentando, de forma rápida e desordenada, a demanda por energia. Lá e no Recreio dos Bandeirantes, a chamada Duração Equivalente de Interrupções por Consumidor (DEC) atingiu 40 horas no ano passado, quase quatro vezes a média de todo o sistema, que ficou em 10,72. A Light promete reduzir a DEC deste ano para 9,1 horas e menos de 8,5 no ano 2000. (O texto esquece, propositadamente, de mencionar a presença maciça dos "transformadores autoprotegidos" que ao contrário dos antigos, desligam-se totalmente por qualquer defeito nos cabos. Como a rede é antiga, o abastecimento fica prejudicado com o "liga e desliga" da proteção. O correto seria a ANEEL exigir a troca do cabeamento onde esses transformadores estão instalados.)
Há problemas estruturais na rede elétrica da Light. Segundo Gaillard, a rede subterrânea de cabos e fios da empresa tem 2.000 quilômetros de extensão, o equivalente à distância que separa o Rio de Maceió ou Cuiabá. A rede de São Paulo, por exemplo, possui apenas 80km. (Por outro lado a rede subterranea tem a vantagem de ser menos suscetível ao roubo e a ruptura de cabos)
Problemas em cima e debaixo da terra
A maioria das câmaras de luz também está debaixo da terra, muitas em locais impróprios para inspeção, como calçadas e áreas pertencentes a edifícios, o que dificulta e onera enormemente o acesso dos técnicos. Nas fortes chuvas que caíram sobre a cidade no início do mês, 50 câmaras subterrâneas foram inundadas.
"Tomamos uma decisão drástica daí em diante: a construção de toda e qualquer câmara tem que ser antes autorizada pela diretoria", informa Gaillard.
A rede aérea também dá dor de cabeça. A poda das árvores, medida necessária para evitar acidentes, geralmente é mal recebida pelos moradores dos bairros. Além de cortar os ramos das árvores, não raro a empresa é obrigada a aparar as arestas junto às entidades que fiscalizam o meio ambiente. ( O que significa aparar as arestas???)
Apesar de ser uma distribuidora, a Light também produz energia, equivalente a 15% de suas vendas.Para aumentar a geração, integra, com outras empresas, o consórcio que está construindo uma termelétrica em Macaé (RJ). Além disso, a empresa está investindo nas usinas de Santa Branca, em Jacareí (SP), e Ilha dos Pombos, em Carmo (RJ). Espera contar também no próximo ano com a energia da usina nuclear de Angra II, que deve entrar em operação. (O fato da LIGHT importar a energia que consome pouco tem a ver com os apagões. A maioria dos problemas do verão passado ocorreu por defeitos da distribuição de energia)
Paralelamente a isso a Light quer que seus consumidores economizem luz. A empresa fechou convênios com a Prefeitura do Rio e a Eletrobrás para identificar os locais onde se consome mais energia e, a partir daí, estimular a racionalização. "É curioso que uma empresa de energia deseje isso, mas é a realidade", diz Gaillard.
Não foram só as elevadas temperaturas do verão de 1997 que jogaram a população contra a Light. Os baixos investimentos nos anos que antecederam à privatização – ocorrida em 1996 – ajudaram,obviamente, a deteriorar os serviços da empresa.