Racionamento, FHC e privatização da Eletrobras

José Antonio Feijó de Melo (*)

Sem dúvida, importante e oportuno este trabalho da AESEL analisando de forma competente a alta probabilidade do Brasil reviver a crise de energia elétrica de 2001/2002, com sério risco de “apagão”.

De fato, até o final deste ano vamos ver apenas um “ensaio” de crise. A situação real somente poderá ser avaliada a partir de novembro, dezembro, quando se iniciar o novo período úmido e então se puder ter noção do nível da hidrologia que a natureza vai nos oferecer. Aí saberemos se vamos passar incólume, ou se em 2022 teremos mais um grande desastre pela frente.

Entretanto, apesar da grande qualidade e competência do trabalho já ressaltadas, peço vênia para registrar uma correção que considero relevante quanto a um equívoco incorrido no item que trata de “Liderança”, quando se refere a ação do governo FHC na crise de 2001/2002.

Assim, apesar de ser verdadeira a afirmativa de que “ao menos na gestão da crise o governo FHC demonstrou alguma competência” (sic), não é verdadeira a informação de que “De imediato, ao perceber que a crise seria inevitável, (o gov. FHC) suspendeu o processo de privatização da Eletrobras” (sic). Não, isto não traduz a verdade.

Ao contrário, durante os nove meses do período do racionamento (jun/2001 – fev/2002) o processo de privatização do grupo Eletrobras foi acelerado e estava para completar-se ainda em 2002.

É preciso esclarecer que a privatização naquela época não era da Eletrobras, mas sim das quatro grandes Subsidiárias, separadamente – CHESF, FURNAS, ELETROSUL e ELETRNORTE. Recorde-se que a privatização da área de Geração da ELETROSUL chegou a acontecer e as outras estavam na vez, cisões programadas, providências em andamento. Ao final, a Eletrobras restaria apenas com a sede, no Rio, algo como acontecera pouco antes com a Telebras. Mas havia luta em defesa daquelas empresas e do interesse público. O próprio ILUMINA estava na linha de frente daquela guerra.

Foi assim que no dia 08 de junho de 2002, um sábado, uma representação do ILUMINA-NE foi recebida pelo então Vice-Presidente Marco Maciel, em sua residência no Recife, ocasião em que foi entregue a ele um conjunto de documentos com razões precisas que desaconselhavam aquela privatização, sobretudo naquele momento, ano eleitoral. O Dr. Marco Maciel ficou sensível à nossa argumentação e garantiu que iria falar com o Presidente.

De fato, durante a semana seguinte ele conversou com FHC e conseguiu a decisão de postergar a privatização do grupo Eletrobras para o próximo ano, já no período do Presidente que seria eleito em outubro daquele ano de 2002.

Registre-se que naquele momento o candidato do PSDB, o Senador José Serra, ainda liderava as pesquisas. Esta história foi contada em detalhes, em primeira mão, em reportagem do Diário de Pernambuco da terça-feira, 18 de junho de 2002, assinada pelo Jornalista Saulo Moreira.

Logo o assunto seria divulgado em todo o País, inclusive com matéria específica na página do próprio Ilumina.

(*) Engenheiro, ex-diretor de Operações da CELPE e ex-chefe de Gabinete da Presidência da CHESF

Obs: Este texto foi tirado do comentário feito pelo autor à postagem “Brasil revive crise energética e risco de apagão

  2 comentários para “Racionamento, FHC e privatização da Eletrobras

  1. José Antonio Feijó de Melo
    6 de julho de 2021 at 11:48

    Aos Amigos do Ilumina, obrigado pela deferência. Mas era apenas um comentário mesmo, com a simples intenção de colocar a verdade dos fatos para os mais jovens, que certamente não vivenciaram a experiência de vinte anos atrás.

    • Alan Costa
      14 de julho de 2021 at 10:50

      Simplesmente intolerável a privatização da eletrobras não somente neste momente mas em especial nele pois se as contas já estão absurdamente caras imagina sob a égide dos financistas do mercado. O apagão, pelo que vejo, será o menor dos problemas pois as pessoas não vão poder pagar as contas e terão o fornecimento de luz cortado de qualquer forma.

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