REFLEXÕES SOBRE A USINA DE BELO MONTE
Naquele final dos anos cinqüenta do século XX, não pensem que os planos de construir a usina de Furnas não encontraram oponentes. Aliás, oponentes de todos os tipos: desde os usuais apregoadores que essas coisas não eram para a competência de brasileiros, até os proprietários das terras que seriam inundadas. Os primeiros pertenciam ao contingente hoje, esperamos minoritário que nos pensam cachorros vira latas. Os segundos, os fazendeiros da região a ser alagada, que tempos depois seriam chamados de “afetados pelas barragens”. Naqueles aprazíveis meados de século, Juscelino já tentava nos convencer que não éramos tão vira latas assim. Mas aqueles proprietários de terras eram os únicos que faziam lobby contra a usina, alardeando o apocalipse se ela inundasse suas terras não tão produtivas assim.
Obviamente, saibam os jovens de hoje, não havia a consciência social e ambiental que passou se mostrar uma década e meia depois.
O proletariado rural sem terra daqueles sertões verdes das Minas Gerais não eram contados como atingidos pela barragem. Para convencer e negociar com a extensa lista de proprietários, desde os menores até os que tinham, três décadas antes na União Soviética, sido chamados de kulaks, a recém nomeada diretoria da nascente Central Elétrica de Furnas S.A. colocou em ação advogados com a mais total competência jurídica somada a uma profunda mineiridade ou mineirice.
A usina de Furnas com seu reservatório plurianual gera desde 1963/1964. Os que a imaginaram e a constataram viável, vislumbraram a vocação hidrelétrica plurianual do país como seqüência de Paulo Afonso, Três Marias e as pequenas Itutinga e Camargos que a antecederam ainda naqueles anos cinqüenta.
Seria fácil hoje empreender um estudo balizado pelas preocupações que afligiram as usinas do Rio Madeira e afligem Belo Monte e os outros empreendimentos hidrelétricos em andamento e futuros. Sua conclusão apresentaria os impactos negativos e positivos sociais e ambientais que por ventura todos e cada um, em operação desde 1955 até 1995, teriam nos legado como virtude ou praga. Seria recomendável que esse estudo fosse cuidado por acadêmicos supridos por dados fornecidos sem restrições pelas empresas de eletricidade concessionárias daquelas dezenas de usinas.
Os que lêem este texto devem estar esperando pelas reflexões do título. Deixo aos leitores a continuidade da reflexão na lógica que esperam. Isto é, tratando de me qualificar como um perigoso inimigo dos índios, dos quilombolas, dos pequenos e médios atingidos. Proponente do extermínio da flora e da fauna. Um merecedor de plena condenação às penas do inferno.
Aos que propõem gerar energia elétrica com crescente emissão gasosa, esses merecem as glorias, as vantagens e o apreço.
Olavo Cabral Ramos Filho
26/09/2009