Um voo de galinha no setor elétrico – Revista Brasil Energia

Roberto Pereira D’Araujo – Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético

Publicado também na Revista Brasil Energia

http://brasilenergia.editorabrasilenergia.com/news/ideias/artigos/2014/12/um-voo-de-galinha-no-setor-eletrico-449867.html.

Talvez não exista uma figura que melhor retrate a atual crise do setor elétrico do que a que está abaixo.

 

A curva oscilante preta foi obtida registrando a energia preservada em cada mês nos reservatórios do sistema interligado dividida pela carga total do mesmo mês. Portanto, o eixo vertical mostra a energia reservada não em GWh, mas em número de meses do nosso consumo desde 2000 até outubro de 2014.

A curva vermelha é simplesmente a linha de tendência calculada matematicamente por um programa de planilha. Não é uma “arte” subjetiva que quer “implicar” alguma tese pré-determinada. É simplesmente uma propensão já embutida nos dados.

Elimine mentalmente a curva preta e visualize apenas a vermelha. Ela tem a aparência de um “voo de um pássaro” que sobe até certo ponto, não se sustenta e cai. É exatamente essa parábola que mostra que estamos numa situação muito parecida à do ano 2000, véspera do racionamento. Alçamos um voo curto e, passo a passo, chegamos ao mesmo nível de perigo. É o nosso voo de galinha.

Pode-se até imaginar que, pelo menos até 2007, a estratégia de “voo” deu certo, pois, mesmo nos períodos secos, não ficamos com reservatórios vazios. Contudo, esse trecho “vitorioso” contou com uma enorme ajuda do consumidor. A carga no período pós-racionamento se reduziu em 15%, o que em termos de crescimento da demanda, pode significar três ou anos quatro anos. É como se nesse trecho a “ave” fosse aliviada de um peso.

Essa sobra estrutural durou até 2007 e, por razões singulares do sistema, o Brasil ofereceu energia quase gratuita no mercado livre à custa das usinas hidroelétricas descontratadas da Eletrobrás, assunto que não vamos tratar aqui, mas que mostra uma situação de preços inversa a atual, quando era possível liquidar um MWh por R$4,00. A elipse na figura, que vai de meados de 2007 até 2014, é a nossa advertência. Como se pode perceber, a tendência declinante se iniciou e veio se “acelerando”.

Culpa de São Pedro? Mais uma vez, a pecado não é dele. A sequência de energias naturais do período 2007 a 2013 em função da média de longo termo (MLT) foi a seguinte: 104%, 97%, 117%, 100%, 120%, 87% e 97%. Portanto, mesmo o ano 2012 (87%), não pode ser rotulado como um ano extremamente seco. O ano corrente é árido, mas com os dados disponíveis até outubro, ainda não é o mais seco do histórico, como diz o governo. Nenhum dos triênios consecutivos pode ser sequer comparado com o famoso período seco da década de 50, um evento que está registrado no histórico de afluências, e, se esses dados fazem parte da nossa metodologia, deveríamos estar preparados.

Evidentemente esse quadro tem rebatimentos sobre o modelo institucional do setor. Como ANEEL, EPE, ONS, e CCEE não perceberam essa tendência? Seria a fragmentação de responsabilidades a razão da incapacidade de antecipar que o “voo” não estava se sustentando? Por acaso a diminuição relativa da nossa capacidade de regularização e suas sequelas são desconhecidas? Fazendo as contas traduzidas no gráfico, seria possível não desconfiar que o sistema caminhava para um desequilíbrio estrutural?

As autoridades só se deram conta do problema em setembro de 2012, coincidentemente após a MP579, quando o padrão de despacho térmico quase triplicou. Mas, ainda sem perceber o “pouso”, deram um sinal contrário aos consumidores baixando tarifas de forma não ortodoxa. Em todo o período de 2007 até setembro de 2012 as térmicas estavam sendo usadas como se o “voo” estivesse sustentado. Hoje, o “desespero” em preservar a reserva faz que muitas dessas usinas estejam funcionando além do prazo para manutenção.

Duas conclusões podem ser intuídas pelo simples exame do “voo da galinha”:

  1. As térmicas deveriam ter sido acionadas antes, de tal modo que uma parcela maior da carga estivesse sustentada por elas.
  2. Se o sistema contasse com mais usinas, mesmo hidráulicas a fio d’água, os reservatórios poderiam ser mais bem preservados.

Essas duas conclusões contradizem a afirmação das autoridades de que o sistema está em equilíbrio. A causa primeira dos problemas é a formação de preços, que tanto aciona as térmicas, como influi na expansão do sistema. Portanto, como houve um otimismo injustificado, as famosas garantias físicas estão todas superavaliadas. Em termos simples: Faltam usinas!

A dívida galopante que ameaça o equilíbrio do setor tem sua gênese no fato de que o PLD (o spot brasileiro) nada mais é do que o custo marginal de operação cuja característica de volatilidade e valores extremos sempre foi conhecida dos técnicos. Portanto, a insistência nesse modelo é um mistério. Alguém acredita que, com os novos limites para o PLD, estamos solucionando alguma coisa?

Apesar desse quadro sombrio, felizmente a curva tem um denominador e lá está a carga do sistema, a variável sempre esquecida. Só razões políticas explicam a não adoção de medidas de racionalidade de consumo. Sob o imobilismo, se tivermos um racionamento, ele será ainda mais severo.

Por outro lado, o sol, lá do alto, continua sem entender porque esse quente país não percebe que captando parte da sua energia diretamente em tantos telhados, os ambientes ficariam mais frescos e ainda faria que suas usinas achassem que a carga diminuiu.

Talvez o segredo para que o pássaro levante o voo esteja do outro lado dos fios.

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